"Não sou fotogênica."
Eu ouço essa frase quase que diariamente. Ela vem antes do orçamento, antes da data e, especialmente, antes do ensaio. Vem como um aviso, como se a mulher precisasse me preparar para uma decepção.
E vem acompanhada das primas dela:
"Eu fico dura na frente da câmera."
"Nunca saio bem em foto."
"Quando eu sorrio, fecho os olhos."
"Odeio me ver em foto."
Se você já disse alguma dessas, eu quero te propor uma coisa: e se o problema não for você?
O que "ser fotogênica" realmente significa
Ninguém nasce fotogênica. Isso não é um traço, como ter olhos castanhos. É uma habilidade e, mais que isso, é uma condição: a de estar confortável sendo olhada.
E quase nenhuma de nós foi ensinada a isso.
Fomos ensinadas ao contrário. A puxar a barriga. A esconder o braço. A procurar "o lado bom". A pedir pra apagar. A gente aprendeu, muito cedo, que o corpo feminino é um projeto inacabado, algo a ser corrigido antes de poder ser visto.
Então quando a câmera aparece, ela não encontra uma mulher. Encontra uma mulher se defendendo.
É isso que aparece na foto. Não a sua cara. A sua defesa.
Por que suas selfies não valem como prova
Um argumento que eu escuto muito: "tem gente que é muito fotogênica. tenho uma amiga que sempre sai linda nas fotos, já eu..."
Eu acredito que sua amiga saia linda em fotos, mas provavelmente ela treinou, gosta e tem a autoestima elevada.
Além disso, muitas das fotos de celular são feitas de forma inadequada.
Foto de aniversário, tirada de baixo, com luz de teto, no meio de uma conversa, sem você saber. Selfie às 23h. A foto que sua amiga tirou e postou sem te avisar.
Nenhuma dessas foi feita com alguém olhando para você como um todo e sem nenhum refinamento técnico.
Luz de teto marca tudo o que você não quer marcar. Câmera de baixo distorce. E a foto tirada de surpresa pode funcionar muito bem, mas pode também te assustar.
Nada disso é evidência de que você não é fotogênica. É evidência de que você nunca foi bem fotografada.
O que muda quando alguém te olha com cuidado
A câmera não inventa. Ela mostra o que está ali.
Mas tudo muda quando a foto é feita com afeto, com tempo, com uma luz que te trata bem e que vai te mostrar o que você tem de melhor.
A gente costuma dar muito mais atenção ao que nos incomoda do que ao que nos agrada na nossa aparência. Infelizmente.
Você conhece a sua papada. Conhece a sua ruga. Conhece o seu braço.
Mas provavelmente não conhece o seu jeito de rir quando alguém te faz rir de verdade. Não conhece a sua mão quando ela está relaxada. Não conhece o seu olhar quando você para de se vigiar por três segundos.
Isso também é você. E também aparece, quando existe espaço pra aparecer.
O que fazer, na prática
Não é um truque de pose. É mais simples e mais difícil que isso.
1. Pare de tratar a câmera como uma prova.
Ela não está te avaliando. Ela está te registrando. São coisas diferentes, e a segunda dói bem menos.
2. Se dê o tempo que você nunca teve.
Ninguém relaxa em três minutos. Um ensaio de verdade tem tempo justamente porque os primeiros vinte minutos são de defesa... e tudo bem. É esperado.
3. Comece sozinha, se for mais fácil.
Não precisa de estúdio. Escolha um momento do dia em que você esteja calma. Não precisa estar maquiada ou "pronta". Tire uma foto sua. Pode ser de lado, sentada, de costas.
Antes de tirar, pergunte: "que parte de mim eu estou pronta pra ver agora?"
Depois, olhe a foto como se estivesse olhando pra uma amiga querida. Encontre um detalhe que você goste: a luz no olho, a curva do ombro, a expressão.
Guarde essa foto numa pasta. Dê um nome pra ela.
Essa pasta é o começo da sua coleção de você.
(Escrevi sobre esse processo aqui: como fazer autorretratos me ajudou a ter mais autoestima.)
E se você quiser ir além
Ser fotografada é um ato de coragem; não de vaidade. É se permitir ser vista sem o controle que a gente aprendeu a exercer sobre a própria imagem.
Se você chegou até aqui lendo, alguma parte de você já quer isso.
Escrevi um guia sobre exatamente isso. Se ver com outros olhos tem cinco capítulos e cinco exercícios pra você reencontrar a sua imagem — no espelho, no papel e na câmera do celular. Sem estúdio, sem compromisso, no seu tempo.
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E quando você sentir que é hora de ser fotografada por outra pessoa — os ensaios acontecem aqui, no estúdio, comigo. Uma mulher, uma câmera, e mais ninguém.
Você não precisa estar pronta. Só precisa estar disposta a se olhar.
